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Melasma: tem jeito?

Publicado em 21 de fevereiro de 2015

Por Rafael Ferreira

Antes de traçar um tratamento é preciso entender um pouco mais o que seria um melasma

A Academia Brasileira de Estética e Beleza lançou um estudo no qual aponta que o tratamento para clareamento cutâneo é o terceiro procedimento mais procurado nas cabines, só perdendo para a redução de medidas e limpeza de pele. Outra reclamação muito comum é que os tratamentos parecem serem ineficazes, pois depois de certo tempo as regiões hiperpigmentadas tendem a escurecer novamente, mas como podemos traçar um tratamento que tenha eficácia a curto e longo prazo?

Antes de traçar um tratamento precisamos entender um pouco mais o que seria um melasma, sua gênese e o porquê da dificuldade de eliminarmos as regiões escurecidas da pele. A proposta deste artigo não é indicar produtos ou mesmo desenhar protocolas, mas sim demonstrar como o escurecimento cutâneo acontece e em quais pontos devemos pensar na hora de desenhar o protocolo de tratamento, quais produtos serão utilizados na sessão e nos cuidados de “home care”.

A palavra melasma é derivada do grego “melas”, que significa negro. Este distúrbio de pigmentação é caracterizado por manchas castanhas, claras ou escuras, de limites imprecisos que ocorrem mais comumente na face, mas pode acometer qualquer região exposta ao Sol. Apresentam características simétricas, sendo mais comum a manifestação centrofacial, envolvendo a região malar, fronte, lábios superiores e queixo, como demonstrado na figura 1.

Figura 1: Regiões acometidas por melasma

Figura 1: Regiões acometidas por melasma

Esta disfunção acontece por alguma descompensação no mecanismo fisiológico do melanócito, célula responsável pela produção de melanina que é uma das responsáveis pela proteção da pele contra as agressões promovidas pela radiação solar. O primeiro passo de um tratamento com uma boa abordagem estética e correta indicação cosmética é identificar quais os fatores que podem estar descompensados.

A produção de pigmento melanina acontece através de um processo enzimático oxidante do aminoácido tirosina mediado por uma enzima, que é dependente do íon cobre para funcionar, este processo recebe o nome de melanogênese.

A melanogênese no nosso organismo pode responder por 4 vias de comunicação, apesar da abordagem estética e cosmética não suprimirem por completo a inibição destas vias podemos promover uma modulação da pigmentação de maneira que a pele clareie.

A primeira via é conduzida através de uma via neurócrina, esta via utiliza o sistema nervoso para sinalizar produção de melanina. A luminosidade é capitada através do nervo ótico, que leva a mensagem por uma via aferente para o sistema nervoso central, que traduz a luminosidade como decorrente da presença do Sol, enviando sinalização por via eferente que estimula a produção de melanina pelo melanócito. Pessoas que ficam grande tempo expostas a luminosidade intensa tendem a ter a pele mais escura.

A sinalização neurócrina não pode ser mediada com procedimentos estéticos ou mesmo cosméticos, neste caso devemos focar o tratamento na inibição enzimática, impossibilitando sua ligação com o metal cobre, com ativos quelantes ou inibindo a oxidação, ativos que apresentem esta finalidade amenizarão a hiperpigmentação desta pele.

A via endócrina também é responsável pela ativação da melanogênese no nosso organismo, o melanócito responde aumentando a produção de melanina quando estimulado pelo hormônio estimulante de melanócito (MSH), ele também responde ao hormônio estrógeno, progesterona e hormônio adrenocorticotrófico (ACTH), estes últimos encontram-se aumentados significativamente na gravidez, gerando a problemática do cloasma gravídico.

Esta via não pode ser modulada por procedimentos estéticos e aplicação de cosméticos, portanto a terapia deve também deve ser focada na ação antioxidande, de inibição enzimática ou quelando cobre.

A via parácrina no nosso organismo caracteriza a comunicação entre células vizinhas, na interação melanocitária o queratinócito envia sinalização química para o melanócito toda vez que se sente agredido pela radiação UV. A substância responsável por esta comunicação é a endotelina-1, toda vez que ela se liga no receptor do melanócito inicia-se a melanogênese. Alguns ativos funcionais, como os extraídos da flor de margarida inibem a endotelina-1, evitando a sinalização de início da melanogênese. Este tipo de via deve ser inibida significativamente em pessoas que tem grande exposição com a radiação solar.

O melanócito também é muito sensível à comunicação inflamatória no nosso organismo, toda vez que ele detecta sinalizadores de inflamação ele interpreta que a pele está sendo lesionada pela radiação solar e inicia a melanogênese. O problema é que ele não diferencia os tipos de inflamação ou mesmo a fonte, pois ele responde da mesma maneira para estresse oxidativo. Isso pode gerar as hiperpigmentações pós-inflamatórias ou pós-lesionares. É muito importante trabalhar com ativos que tenham atividade antioxidante, que evitam o estresse oxidativo e amenizam os efeitos inflamatórios, também servem como opções ativos cosméticos com ação “corticoide like”, simulando atividade de anti-inflamatórios. Antiedematosos, vasoconstritores ou qualquer outro ativo que amenize os sinais ordinais da inflamação (dor, rubor, calor e edema) serão úteis para amenizar este tipo de sinalização.

Justamente pelo estresse oxidativo também desencadear resposta do melanócito identifique se o seu cliente é uma pessoa estressada ou que vive uma rotina estressante, atente também se o ciclo de sono do paciente é normal, pois pessoas que dormem menos ou trabalham no período noturno tem maior tendência a manchar a pele. Neste caso uma boa suplementação com nutracêuticos antioxidantes garantirão o sucesso do tratamento.

A melanina, produzida dentro do melanossoma do melanócito, será inserida dentro dos queratinócitos da camada espinhosa através dos dendritos, como demonstrado na figura 2. Estas, juntamente com a queratina, serão as proteínas que compõem o estrato córneo, portanto todo por tratamento clareador deve iniciar com uma esfoliação que promova a remoção das células mortas superficiais cheias de pigmentos escuros, além de favorecer a permeação dos demais ativos funcionais.

Figura 2: Inserção da melanina nos queratinócitos através dos dendritos melanocitários

Figura 2: Inserção da melanina nos queratinócitos através dos dendritos melanocitários

Lembre-se que o foco do tratamento cosmético clareadores será a camada basal, pois necessitamos inibir a atividade do melanócito, e para isso devemos romper a resistência que o estrato córneo exerce, sendo necessário o uso de recursos eletroterápicos como a iontoforese, a alta frequência ou eletroporação, não é tão simples atingir uma camada tão profunda.

Caso o profissional não disponha de nenhum recurso eletroterápico ele deve dar preferência a ativos que facilitem a permeação como os lipossomados, associados em nanotecnologia ou ao menos veiculados em emulsão de cristal líquido, pois em todas estas situações haverá aumento da permeação de ativos e melhores resultados de tratamento.

Após identificar a causa do escurecimento busque por ativos funcionais dentro de um protocolo que otimize as suas funcionalidades e lembre-se da importância do acompanhamento “home care” e do uso de protetor solar contra radiação UVB, conferida pelos valores de FPS, e contra radiação UVA, conferida pelos valores de PPD.

Outra reclamação comum no tratamento dos melasmas é que com o tempo a área hiperpigmentada tende a escurecer novamente, desacreditando a validade do tratamento e até mesmo a qualidade técnica do profissional que conduziu o procedimento.

A primeira coisa que devemos deixar bem claro para nosso cliente é que o tratamento clareador irá amenizar a área escurecida, de maneira que a hiperpigmentação não seja um incomodo, não é todo melasma é totalmente reversível, mas sempre pode ser amenizado.

Também é fundamental explicar que o tratamento tem como objetivo amenizar, ou tentar eliminar a discromia, mas o melanócito já foi sensibilizado e se ele não mantiver um controle para o resto da vida com produtos “home care” a região hiperpigmentada voltará, e geralmente com um aspecto ainda pior.

Algumas zona escurecidas são muito dificilmente corrigidas somente com cosméticos, sendo necessária a laserterapia, este recurso é muito indicado quando o melanócito faz depósito direto de pigmentos da derme, o seu dendrito perfura a lamina basal e começa a depositar melanina na matriz dérmica, e como a derme não descama o pigmento fica acumulado, neste caso é necessário implodir o pigmento direto na derme, e depois manter um controle na pigmentação, com principal foco na atividade antioxidante, senão a pele tenderá a manchar novamente.

Não tem como saber exatamente qual é a alteração mais significativa que sensibilizou o melanócito, bem como nunca devemos pensar em inibir por completo a atividade do melanócito, pois poderemos trocar uma zona escurecida por uma zona de hipopigmentação, gerando neste caso uma acromia.
Portanto cuidado ao tratar fototipos mais escuros, pois estes são mais sensíveis a manchar, uma vez que seus melanócitos já têm como característica uma produção acelerada de melanina, foque muito a atividade antioxidante e atenuação da sinalização inflamatória.

A avaliação vai ser outro ponto fundamental no sucesso do tratamento, identifique aqui qual foi o motivo que estimulou em excesso o melanócito, pois o tratamento deverá ser desenhado encima destas informações.

E para fechar lembre-se sempre da indicação do “home care” com ação complementar ao seu tratamento, por exemplo, se você vai focar na sessão inibição da atividade enzimática, esfoliação e uso de ácidos clareadores, mantenha um “home care” antioxidante, já se o seu foco durante a sessão é a esfoliação e atividade antioxidante mantenha um tratamento com “home care” que iniba a sinalização da endotelina-1. Sempre tenha como foco trabalhar ao menos 3 pontos de sensibilização do melanócito, se 2 deles forem abordados em cabine o terceiro deve ser abordado em casa, além do uso contínuo de fotoprotetor bem como a importância da sua reaplicação ao longo do dia.