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Botox Preventivo – Será mesmo?

Publicado em 21 de março de 2015

Por Rafael Ferreira

O uso indiscriminado deste procedimento alerta para alguns cuidados importantes

Hoje o procedimento de Botox se popularizou significativamente como uma das maravilhas garantidas dentro da estética para atenuar as linhas de expressão, que denunciam a idade na mais simplória expressão facial que permanece fixada em nossos rostos.

Esta técnica consiste na aplicação da toxina botulínica do tipo A, obtida a partir da bactéria Clostridium botulinum. Diretamente na musculatura, a dose aplicada da toxina atenuada promove uma ação seletiva local, promovendo um relaxamento da musculatura que para de responder aos estímulos nervosos, promovendo uma atenuação das marcas de expressão, como demonstrado na figura 1.

Figura 1: Resultado da aplicação do Botox®

Figura 1: Resultado da aplicação do Botox®

A duração média do procedimento é de cerca de 3 a 4 meses necessitando de reaplicações para gerar um novo resultado ao tratamento.

A contínua tração muscular causa uma tensão na derme gerando sulcos. Em um primeiro momento, os sulcos são considerados dinâmicos, pois só são perceptíveis com o movimento, mas tendem a voltar para a posição inicial após alguns instantes, sem deixar marcas visualmente perceptíveis. Mas este estresse mecânico contínuo gera uma marcação no tecido cutâneo que, com o tempo, não tende mais a retornar a posição inicial, gerando as rugas estáticas, as chamadas marcas de expressão.

Mesmo nos casos estáticos observa-se a contínua tração muscular aliviada com a aplicação direta na musculatura da toxina em pontos estratégicos de tensão (demonstrados na figura 2), aliviando a tração mecânica e promovendo um relaxamento tecidual que alivia a tração dérmica, promovendo atenuação dos vincos. Esta mesma ideia serve para as rugas de perfil dinâmico, pois se a musculatura não promover a contração tecidual gerando a tração dérmica, o vinco não será marcado na pele.

Figura 2: Regiões de aplicação do Botox®.

Figura 2: Regiões de aplicação do Botox®.

A proposta de amenizar as marcas geradas por esta mecânica de movimentação facial lançou no mercado a proposta da aplicação preventiva de Botox® em jovens, antes mesmo de se instaurarem as marcas profundas e evitando a percepção dos sulcos dinâmicos. Este procedimento se popularizou de tal maneira que a idade média dos pacientes no inicio de aplicação da técnica era em torno dos 40 anos, mas já é comum pessoas com menos dos 25 anos de idade procurarem o tratamento como forma preventiva. No entanto, esta seria uma solução real para a prevenção das rugas?

Apesar de ser um procedimento sem efeitos colaterais sistêmicos, ele não é completamente eficaz no combate as rugas. O Dr. David S. Becker, especialista em dermatologia do Weill Cornell Medical College, em Nova York, publicou no Cosmetic Dermatology que o botox pode induzir o surgimento de novas rugas.

A musculatura paralisada continua a receber sinalização nervosa que induz a contração muscular, mas a inibição promovida pelo medicamento evita a contração, contudo a musculatura vizinha adquire um mecanismo compensatório de movimentação, podendo gerar um vinco em uma região vizinha a ser tratada.

A dermatologista Paula Belloti ainda completa que a precisão de aplicação da técnica é fundamental no bom resultado, pois se a paralisia muscular não for precisa, pode-se acentuar ainda mais o vinco após o termino da eficácia do medicamento. Assim seria necessário avaliar bem as características individuais de cada indivíduo antes da aplicação, para que a mesma gere os melhores resultados possíveis com o mínimo de implicações futuras.

O Cosmetólogo Rafael Ferreira defende que a técnica deve ser usada com cuidado e não da forma indiscriminada, como vem acontecendo hoje. Ele comenta que ao avaliarmos as condições da pele, as rugas são formadas por um processo de flacidez decorrente da idade, que se baseia em dois mecanismos.

O primeiro mecanismo de flacidez da pele é decorrente de um processo de atonia muscular, exacerbado pela paralisia muscular, pois a musculatura fica sem atividade, perdendo força de contração e sustentação. Para reverter este caso é muito comum na estética a indicação do procedimento de eletrolifting, estimulando a musculatura, lhe conferindo tônus e sustentação. Observa-se nestes casos uma expressiva melhora nos vincos profundos e levantamento do olhar.

O segundo mecanismo de ação está correlacionado com a flacidez tissular. As fibras colágenas da derme ficam comprometidas, diminuindo em quantidade e se alterando morfológicamente, do tipo 1, que gera sustentação, para tipo 2 ou 3, que apesar de gerarem preenchimento não tem tamanha função de sustentação, deixando esta camada mais susceptível as tração mecânicas musculares e da gravidade, exacerbando os vincos, como demonstrado na figura 3.

Figura 3: Rugosidades decorrentes de flacidez tissular

Figura 3: Rugosidades decorrentes de flacidez tissular

A grande problemática no relaxamento da musculatura é que, apesar de diminuir a tensão que retrai o tecido, se este não for devidamente tratado para estimular a produção de colágeno tipo-1, isso gerará um estresse decorrente da ação da gravidade, uma vez que a pele não divide mais a função de sustentação com a musculatura, gerando um tecido com maior tendência a flacidez.

Com isso teremos uma ruga de problemática dupla, gerada por uma flacidez tissular decorrente da alteração morfológica da derme e da flacidez muscular atribuída pela atonia muscular, gerando rugas tardias de difícil tratamento.

O mercado estético e cosmético já nos disponibiliza alternativas para atenuar as rugas de maneira preventiva, bem como as profundas, sem gerar problemáticas futuras. As técnicas de preenchimento cosmético não invasivo, manobras manuais lifting, tratamentos descontrateis, estímulos diretos na produção de colágeno, regeneração tecidual profunda e superficial, tonificação muscular, tratamentos com proteção do DNA celular e estímulo de sinalizadores endógenos são boas alternativas oferecidas pelo mercado, com efeitos equiparáveis e sem gerar problemáticas futuras. Todavia, a resposta imediata e lucro certo atribuído pela aplicação da toxina ainda faz desta técnica muito atrativa no mercado.

Um bom profissional da área médica e estética irá traçar o melhor tratamento dentro de cada caso, tentando promover a melhora da condição da pele, avaliando as necessidades atuais e futuras da pele. Se ela for o uso da toxina botulínica é importante lembrar que sozinha não é a solução, mas sim uma importante coadjuvante no tratamento das rugas.


Bibliografia

• APB. A Popularização do Botox. Jornal o Globo. Caderno Saúde de 15/01/2012, disponível em <http://www.paulabellotti.com.br/wp-content/files_mf/1357834621botox1.pdf> acessado em 30/05/2013.
• BECKER, D S, Muscle Recruitment as a Potential Side Effect of Botulinum Toxin Therapy. Cosmetic Dermatology. December 2002; 15(12): 35–36.
• BORGES, F S. Modalidades Terapêutica nas Disfunções Estéticas. 2 ed. São Paulo: Phorte, 2010.
• RIBEIRO, Claudio de Jesus. Cosmetologia aplicada a dermoestética. 2 ed. São Paulo: Pharmabooks, 2010.