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A Panaceia Peeling

Publicado em 15 de abril de 2015

Por Rafael Ferreira

O procedimento cria a expectativa de que irá eliminar, por completo, todas as disfunções estéticas de suas vidas para todo sempre. Será?

O peeling é hoje um dos procedimentos estéticos faciais mais procurados. Ele caiu na graça dos clientes que já chegam solicitando-o com a expectativa de que ele irá eliminar por completo todas as disfunções estéticas de suas vidas para todo sempre.
Este procedimento estrela também ganhou as graças do profissional da estética pelas inúmeras possibilidades de tratamento que ele abrange como rejuvenescimento, clareador, antiacne, para estrias dentre outros.

Observa-se que as empresas cosméticas seguem a mesma onda, produzindo cada vez mais opções de produtos de uso profissional e homecare, deixando este mercado ainda mais aquecido e economicamente atrativo.
Mas ao analisar tudo isso, as muitas perguntas sobre peeling que me são enviadas, bem como as dúvidas durante cursos e treinamento, eu lanço uma pergunta reflexiva: Quem disse que o peeling resolve tudo?

Vamos quebrar alguns mitos sobre este procedimento, que é sim uma poderosa arma da estética, se bem conduzido. Caso contrário ele pode ser causador de grandes estragos na autoestima de nossos clientes, além de manchar a imagem de profissionais sérios que conduzem muito bem o tratamento peeling.

Para entendermos realmente as indicações do peeling é fundamental entendermos o que vem a ser um peeling, seus tipos, apresentações e finalidades terapêuticas.
Gosto de classificar o peeling como uma inflamação induzida e controlada da pele. Esta lesão tecidual vai sinalizar para o nosso organismo que ele precisa se regenerar, gerar um processo cicatricial que gera um novo tecido com aparência renovada. É fundamental que esta inflamação seja controlada, se perdemos o controle do quadro inflamatório ficaremos sujeitos as reações adversas do peeling como marcas, alterações do relevo cutâneo ou mesmo hipercromias, por isso todo peeling de maior intensidade deve ser precedido por um pré-peeling, evitando que o quadro infamatório se instale bruscamente de uma vez, e encerrado com um pós-peeling, dando condições para a regeneração do tecido, mas ainda assim mantendo o estímulo inflamatório para sua renovação.

É importante saber como associar as apresentações cosméticas para maiores resultados nos tratamentos. Hoje o mercado nos disponibiliza produtos abrasivos esfoliantes, gommages e peelings, e muito comumente o profissional da estética fica em dúvida o que utilizar. Vamos esclarecer uma coisa a diferença entre estas formulações está na “língua” pois em português dizemos que os ativos esfoliantes são abrasivos, em inglês dizemos que eles são peelings e em francês que são gommages, ou seja a finalidade deles é a mesma, o que vai na verdade diferir entre eles é o mecanismo de ação desta abrasão.

Os abrasivos disponíveis no mercado podem ser físicos, promovem a sua ação por fricção mecânica, removendo as células superficiais, são muito indicados para regularizar o relevo cutâneo, aumentar a permeação de ativos além de acelerarem os ciclos do “turn over” celular, ou seja, da diferenciação das células de epiderme.

Encontramos vários tipos de esfoliantes físicos, lembrem-se que os que apresentam partículas de menor tamanho são mais suaves, enquanto os de partículas mais grosseiras são mais abrasivos, a intensidade desta abrasão deve ser avaliada antes do seu uso, peles idosas e acneicas demandam de esfoliação mais suave sempre.
Os abrasivos biológicos, também denominados como enzimáticos, podem ser de ação direta promovendo uma atividade proteolítica, ou seja, a enzima tem a capacidade de quebrar a proteína da pele, no caso a queratina, rompendo as células superficiais, são representantes desta classe enzimas como a papaína extraída do mamão, a bromelina extraída do abacaxi ou mesmo a ficcina extraída do figo. Já temos alguns abrasivos biológicos indiretos, como os de fermentação bacteriana, eles são sinalizadores do ciclo de diferenciação celular, ativam o “turn over” e mesmo sem causar inflamação eles promovem renovação celular.

Ele acaba sendo uma alternativa muito interessante para pessoas que tem grande sensibilidade ao peeling mecânico ou mesmo químico, dependendo da concentração de enzimas utilizadas eles pode fazer uma homogeneização suave do relevo cutâneo ou mesmo abrir caminho para permeação de ativos funcionais ou para otimizar os resultados dos peelings ácidos.

O mecanismo de abrasão ácida acaba sendo o mais procurado, tanto é que ao se falar em peeling muitos clientes associam automaticamente a aplicação de ácido seguida de uma intensa descamação da pele, ele até mesmo ficou mitificado com relação aos resultados dentro da estética.

A aplicação de ácidos demanda de cuidados e atenção, o primeiro é com relação ao ácido, ou combinação ácida, escolhida para o tratamento, vale ressaltar que o peeling químico tem como mecanismo de ação geral a diminuição da adesão celular por atacar o filme lipídico, também conhecido como cimento intercelular, além de gerar um quadro inflamatório, só que cada ácido tem uma característica específica e indicação, a escolha certa vai resultar em bons resultados ao tratamento.

Também precisamos lembrar que os peelings dentro da cosmética tem algumas limitações a primeira vem com relação ao pH dos produtos. Câmara técnica na área da cosmética nacional (CATEC) lançou um parecer número 7 de 2001 que diz que produtos cosméticos com ácidos devem ter pH mínimo de 3,5, a somatória de todos os ácidos presentes na formulação não deve ultrapassar 10% e são classificados como grau 2, este é um parecer que vale a pena ser avaliado mais a fundo, esta legislação comenta sobre ácidos da classe alfa-hidroxiácidos, e apenas sobre ela. ARDC 215/1005 comenta sobre algum ativos com restrições em cosméticos, como o ácido salicílico restringindo sua concentração em cosméticos para no máximo 2%.

Frente esta limitação sabe-se de muitos casos onde os profissionais da estética conseguem de formas escusas peelings a quem destas concentrações para uso em seus “espaços terapêuticos”, esta atitude pode manchar uma classe profissional como um todo pela simples falta de conhecimento da correta aplicação desta peeling.
É certo que quanto mais baixo o pH mais forte é atividade do ácido, pois sua biodisponibilidade de ativação é maior, bem como se a concentração de ativos na formulação for mais alta maior é a intensidade de esfoliação que a formulação promoverá, mas ainda assim é possível resultados equiparáveis com peeling médicos apenas utilizando produtos cosméticos.

O segredo para resultados surpreendentes está na compreensão de que os ácidos agem de forma tempo dependente, ou seja, maior o tempo de contato, maior a abrasão química, além de que a sobreposição de camadas e associação com outros abrasivos químicos, físicos e biológicos gerarão maiores resultados de esfoliação.

É importante se entender que o resultado do peeling cosmético é diferente do peeling médico que faz uma única aplicação, na estética serão conduzidas cerca de 6 aplicações para equiparar o resultado, portanto profissional e paciente não devem ter presa mas sim focar no resultado final, de forma segura e com uma grande vantagem frete aos procedimentos mais agressivos, o peeling cosmético não tira o paciente da sua rotina normal, e em alguns casos é justamente isso que o nosso cliente procura, um tratamento no qual ele tenha resultados mas não precise sair da sua rotina normal.
Apesar de parecer a resposta certa alguns procedimentos irão surtir melhores resultados do que o peeling, ou somente o utilizaremos como coadjuvante de tratamento, geralmente com foco de otimizar a permeação de ativos cosméticos ou regularizador do relevo cutâneo.

O tratamento de rugas superficiais não deve ter o peeling como foco do tratamento, pois elas geralmente são depressões epidérmicas causadas por desidratação, tratamentos hidratantes e de perfil antioxidante surtirão melhores resultados nesta pele.

Algumas peles se tornam hiper-reativas por excesso de agressões externas, a pele para
aumentar a sua proteção se torna mais espessa e hiperqueratinizada, o primeiro passo é diminuir a irritabilidade desta pele até a sua normalização, um tratamento com foco emoliente deve ser conduzido no primeiro momento, para só então focarmos na regularização e afinamento do relevo cutâneo.

Tome muito cuidado ao escolher abrasão ácida com finalidade clareadora em peles com tendência a hipercromias pós-inflamatórias, faça uma boa avaliação e observe o que realmente causou o surgimento da região escurecida, pois o peeling é uma inflamação, se o paciente já tem a tendência em hiperpigmentar o procedimento ao invés de clareador será escurecedor.

O fototipo deve ser sempre considerado na escolha do ácido utilizado para condução do tratamento, por exemplo o ácido kójico não é indicado para fototipos altos, seria melhor trabalhar com o ácido mandélio. A época do ano também é importante, podemos fazer peeling químico o ano todo, escolhendo ácidos com perfil não fotossensibilizante como a gluconolactona e orientando o nosso cliente com relação aos cuidados da exposição solar e as demais radiações, como as da “luz branca das lâmpadas de escritório e da iluminação da tela do computador”.

Portanto, sejamos mais criteriosos ao escolher o peeling como procedimento. Vale ressaltar que o profissional da estética é você, mesmo que o cliente queira realizar o procedimento, é você quem deve decidir se é realmente o que a pele dele precisa.